Carregando Água na Peneira

Higor Mariano Arco Ator, Diretor e Presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Jales-SP.

O escritor Manoel de Barros definiu bem o exercício de escrever e de ser artista, quando comparou o “ser poeta” com “carregar água na peneira”. Muitas vezes (quase sempre) em nossa peregrinação, somos preenchidos por esse sentimento que o poeta tão bem elucidou. A sensação de que o que provocamos no mundo é tão pequeno, de que jamais veremos a transformação em que tanto idealizamos e sonhamos nos cerca constantemente. A utopia nos preenche.

Porém, sei que o caminhar de um artista só é marcado de sentido, quando de fato carregamos água na peneira. Foi assim que me descobri artista, é assim que me descubro humano.

Maio é o mês em que ocorrem campanhas em todo território nacional em Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data do dia 18 foi instituída por Lei Federal há 21 anos como dia Nacional para tais mobilizações. Infelizmente, não temos a total dimensão do quanto esse problema é real e presente em nosso país. Segundo dados do Ministério da Saúde, três crianças são abusadas a cada hora no Brasil, o que é horrível de se absorver se torna ainda pior quando nos deparamos com a informação de que 90% dos crimes cometidos contra crianças e adolescentes acontecem no ambiente familiar. O lugar em que nossas crianças e adolescentes deveriam se sentir seguras e acolhidas, é para muitas delas um ambiente em que seus direitos são violados.

Muitas vezes somos acometidos com pensamentos de que existem determinados problemas sociais (como esse) que não nos competem e que nada podemos fazer diante de tanta atrocidade. Mas será que de fato é assim que devemos pensar? Será que de fato não há nada a ser feito?

Os artistas do Ponto de Cultura Escola Livre de Teatro de Jales há anos rompem com esse pensamento e faz a opção de encarar de frente os problemas sociais que nos assolam, com sensibilidade e poesia! Foi assim com o “Auto da Camisinha”, peça teatral sobre prevenção as IST’S/AIDS, com “Diário de Meninos e Sonhos”, “Crônicas de Tonho e Arzira” e tantos outros espetáculos criados a partir da transversalidade, sempre buscando usar a arte como ferramenta que comove, sensibiliza e conscientiza.

Em 2012, provocados pelos profissionais do CREAS de Jales, os diretores do Ponto de Cultura se mobilizaram em torno de mais um tema, dessa vez o Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Desde então, pesquisas, estudos e muito trabalho foi desenvolvido, o resultado é o espetáculo “Meu Quarto, Minha Inocência”, que nos últimos três anos já foi apresentado 60 vezes em mais de 30 cidades do estado de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Entender que essa luta é coletiva é um importante passo que precisamos dar enquanto sociedade, pois só assim de fato conseguiremos assegurar que nossas crianças e adolescentes se desenvolvam com todos os seus direitos garantidos, o que é sim uma grande utopia, é sim um grande sonho, mas, como o menino que carregava água na peneira, seguimos… Preenchendo os vazios… Transformando… Lutando… Resistindo!

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